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Falta amor à arte de fazer sapatos

LABOR – Edição de 02-06-2016

16200Manuel Fernandes nasceu em S. João da Madeira a 18 de julho de 1929, mas só foi registado sete dias depois, a 25, porque “naquele tempo era mesmo assim”, como o próprio disse ao labor. É casado; tem três filhos, oito netos e três bisnetos, “espalhados pelo mundo”.

Reside há cerca de 20 anos, em S. Martinho da Gândara, freguesia de Oliveira de Azeméis de onde a esposa é natural, mas continuou sempre ligado a S. João da Madeira. Aliás, ainda hoje é o dia em que “toda a correspondência vai para S. João da Madeira”.

É adepto do Futebol Clube do Porto e chegou a ser dirigente da Associação Desportiva Sanjoanense.

Falamos do homem forte da Evereste, uma das empresas do setor do calçado mais antigas e conceituadas do concelho, à qual se dedicou de alma e coração toda a sua vida. Manuel Fernandes entrou para a Evereste com apenas 13 anos. E nesta fábrica fundada pelo pai foi “um pouco de tudo”, procurando “sempre fazer o meu melhor”.

Aos 86 anos de idade, Manuel Fernandes continua, embora à distância, a ser o grande “timoneiro” da Evereste, fábrica de calçado fundada pelo seu pai, João, a 18 de fevereiro de 1942. Em entrevista ao labor, o empresário sanjoanense partilhou histórias de vida e falou da “arte” de fazer sapatos, à qual hoje em dia, na sua opinião, falta “amor”

Falar da Evereste é falar inevitavelmente da sua vida. Peço-lhe que partilhe connosco esta sua história de vida.

Estudei até aos 13 anos de idade. Em 1943, um ano depois de a Evereste ter sido fundada pelo meu pai e mais três sócios, fui trabalhar para lá, onde fui cortador, modelador, vendedor. Enfim, fui um pouco de tudo, procurando sempre fazer o meu melhor.

Como vendedor, comecei a viajar pelo país, aos 16 anos, primeiro com o meu pai e, depois, quando fiz 18 anos, sozinho, numa zona onde não conhecia nada nem ninguém. Foi um período difícil da minha vida, mas, com o pensamento nos ensinamentos do meu pai, fui ultrapassando as dificuldades.

Com 20 anos, fui para os Açores e Madeira, também sem conhecer ninguém. Lá está, foi outro desafio. Aliás, o meu pai mandava-me sempre para sítios onde tinha de lutar.

Nesse tempo, contei com o apoio do meu padrinho de batismo na viagem, o Sr. Dias Ferreira, de S. João da Madeira, antigo colega de trabalho do meu pai.

Na altura, a Madeira era a primeira paragem, onde só se estava umas horas, e depois seguíamos para S. Miguel (Ponta Delgada). Já há 50 e tal anos, havia salas de exposições, nos Açores. Os clientes eram extraordinários. Todos os dias fazíamos questão de os cumprimentar e de ter uma série de cortesias para com eles.

Mas, então, o Manuel viajava sozinho? Não ia com mais pessoas aqui da zona de S. João da Madeira?

Só ia com o meu padrinho de batismo, que estava a viver em S. João da Madeira e trabalhava nas ilhas com artigos de fazenda, o que nada tinha a ver com o que fazia no continente. Cá ele vendia chapéus, tal como o meu pai fazia antes de fundar a Evereste.

Por falar nisso, o que levou o seu pai a criar a Evereste em 1942? O ramo do calçado já estava enraizado na família?

Não, não estava enraizado na família.

“Conseguimos ultrapassar o monte Everest”

Como surgiu o nome Evereste?

Na altura, tínhamos um padrão, que era o padrão da qualidade. Com certeza que o meu pai queria que esse padrão subisse à altura do monte Everest, a mais alta montanha do planeta. É essa a explicação que tenho para o nome e julgo que é a mais certa, contrariamente a outras versões, que se ouvem por aí, de que a escolha do nome se deveu ao facto de o meu pai ser muito alto.

O meu pai quis, portanto, que a qualidade do nosso produto subisse à altura do Evereste.

Passados todos estes anos, o objetivo do seu pai foi atingido?

Sim. Até lhe digo que conseguimos ultrapassar o monte Everest. Funcionando em moldes familiares, a empresa é hoje gerida pela segunda geração, em colaboração com a terceira e a quarta gerações da família.

Antes de fundar a Everest, o meu pai foi vendedor de chapéus. Trabalhou, durante muitos anos, numa empresa de chapelaria em S. João da Madeira. Depois, a determinada altura, resolveu abrir, então, uma indústria de sapatos, possivelmente, para salvaguardar o futuro dos seus quatro filhos (éramos quatro irmãos, sendo eu o mais velho).

Faleceu muito novo, em 1962, com 62 anos. E digo-lhe que nos fez muita falta. Mas ainda antes de o meu pai ‘partir’ já tinha tomado as rédeas da fábrica. Como sofria muito do coração, disse-lhe para ir para casa, que tratava do assunto.

A Evereste não começou com sapatos de homem, mas, sim, com sapatos de agasalho. Fomos buscar elementos a Oliveira do Douro e Avintes, que era onde se fabricava esse tipo de calçado. Ainda fabricámos sapatos de agasalho durante uns anos. E chegámos também a produzir sapatos de criança.

Primeiro, a Evereste laborou nos baixos de uma casa do Sr. Oliveira, um dos sócios, que tinha uma fábrica de guarda-chuvas ou guarda-sóis, já não me lembro bem. Estivemos aí muito tempo. Posto isso, quando entrou o novo sócio, passámos para os baixos de uma casa desse António Paiva Moreira, acima do campo de futebol.

Entretanto, mudámos para a Quintã, onde ele também tinha uma casa e, finalmente, fomos para onde estamos agora, na Rua Afonso de Albuquerque.

A Evereste começou por ser uma fábrica muito pequena. Quando começámos a trabalhar com sapatos de homem, teríamos para aí 70, 80 empregados. Hoje temos cerca de 60, porque a mecanização da fábrica levou, obviamente, a uma redução do número de colaboradores.

O Manuel começou por estar sozinho na fábrica? Ou contou, desde o início, com o apoio dos irmãos?

Não, não. Comecei por estar sozinho. Só, depois, o meu irmão Joaquim veio, a determinada altura, também para a fábrica. Também este meu irmão teve um papel importante na história da empresa, indo frequentemente a Angola e a Moçambique, para fomentar as vendas e para que os clientes entendessem que estávamos a acompanhá-los com um elemento que estava diretamente ligado à firma. Sabe, tivemos um lugar de destaque nas nossas províncias ultramarinas.

Lá a Evereste teve um êxito extraordinário, uma clientela fora de série, grandes firmas que reconheciam o que lhes mandávamos. Temos, aliás, cartas enviadas pelos nossos clientes a acarinhar-nos e a dizer-nos que estavam felizes por receberem os nossos sapatos, o que não é normal acontecer.

Essas cartas demonstravam que os clientes estavam satisfeitos com o produto…

Sim, sem dúvida.

A Evereste começou por produzir para quem? Produzia apenas para o mercado nacional?

Inicialmente só produzíamos para o mercado nacional, inclusive para as ilhas. Depois é que surgiram Angola e Moçambique, onde agora o mercado está um bocadinho congelado, porque as transferências de dinheiro não existem. Esperamos por melhores dias, assim como esperamos que os nossos Governo e Presidente da República intervenham nesta situação de impasse.

Relativamente aos Açores e Madeira, estão praticamente abandonados, porque não têm poder de compra para os nossos preços. Temos também clientes em França, na Alemanha, entre outros países.

Qual é, então, o vosso maior mercado?

Continua a ser o mercado nacional. Não abandonamos, de modo algum, o mercado nacional. E, nesta batalha diária, procurámos que os nossos colaboradores e agentes sintam o amor e a paixão que temos pela Evereste, tal como senti durante o tempo em que estive diretamente à frente do negócio.

Já agora conto-lhe um episódio da longa história da Evereste: O meu pai morreu a um sábado, enterrou-se a um domingo e na segunda-feira já estava a fábrica a trabalhar. Talvez a minha mãe e os meus irmãos tenham contestado esta minha decisão, mas a verdade é que era isto que o meu pai queria que se fizesse. A fábrica tinha compromissos que tinha de honrar. Por isso, trabalhámos na segunda-feira. Não houve dias de nojo.

O meu pai foi um grande homem, atrás do qual esteve sempre uma grande mulher, a minha mãe Preciosa, que o ajudou muito e que, apesar do seu feitio especial, era muito compreensiva. Tenho impressão que o meu pai não viu nascer um único filho, porque andava sempre em viagem. Hoje o que se faz em dois dias, antigamente fazia-se em 15 dias, sem vir a casa.

Antes preocupávamo-nos com os clientes, conversávamos… os negócios quase que vinham por acréscimo. Havia uma confiança grande e muita amizade também. Éramos visitas dos clientes, almoçávamos e até dormíamos em casa de alguns.

Apresentação de nova marca prevista para setembro

Quais as marcas que hoje produzem?

Além da marca Cohibas, produzimos Miguel Vieira e Evereste. Entretanto, está a ser trabalhada uma nova marca, que, para já, está no segredo dos deuses. Vai ser apresentada em setembro próximo. Com isto, queremos uma marca verdadeiramente global para podermos afirmar-nos cada vez mais.

Como é a vossa relação com os fornecedores?

Procuramos sempre ser coerentes connosco próprios, tendo sempre uma palavra para com os nossos fornecedores, que sempre confiaram em nós e nos apresentaram matérias-primas de uma maneira excecional. Costumo dizer muito que “vale tanto um fornecedor como um cliente”, porque sem bons fornecedores não podemos ter bons sapatos nem bons clientes.

Na Evereste os fornecedores são recebidos de um modo muito particular. Sei que muitas firmas fazem esperar os fornecedores à porta, mas connosco isso não acontece.

Tenho dito aos que estão lá agora para terem os pés bem assentes na terra. Digo-lhes para estarem sempre atentos, porque o tempo é tão vertiginoso, que, passado um quarto de hora, já estamos ultrapassados… Temos o facebook, a internet, etc.. E, de facto, é preciso estar muito atento ao que nos rodeia.

Temos também de agradecer ao pessoal que fomos tendo ao longo dos tempos, a todos os nossos colaboradores, aos antigos e atuais.

Como encara as novas tecnologias?

Não me meto nisso, mas sei o que são e a importância que têm. Sem isso, hoje não se conseguia viver.

A Evereste dedica-se apenas à produção de calçado para homem?

Agora já não. Houve um estilista italiano, com quem trabalhamos, que começou a apresentar-nos uma linha de sapatos de senhora, que tem agradado a alguns clientes. É uma linha diferente de todos os géneros apresentados por outros fabricantes de sapatos de senhora.

Temos, aliás, clientes que chegam a comprar-nos só sapatos de senhora.

O que é que diferencia a Evereste das demais indústrias de calçado existentes no concelho?

Além de fabricarmos bons sapatos, procuramos ter bom relacionamento com os nossos clientes, inclusive com os empregados de cada loja.

Atualmente, quem está à frente da Evereste?

O António Carlos, o André, o Joaquim, o Diogo, a Catarina e eu, à distância. Hoje temos bons colaboradores, embora alguns ainda não se convenceram que fazer sapatos é uma arte. Na parte da costura, tivémos mulheres excecionais, porque antigamente havia amor à arte.

Hoje já não há esse amor, de que fala com saudade?

Antigamente, havia uma mulher na máquina de costura, que tinha aprendizes ao seu lado. Hoje, isso já não acontece tão facilmente. Não é fácil arranjar pessoas para trabalhar nesta área.

Temo-nos socorrido da subcontratação devido ao volume flutuante de encomendas… Só assim, conseguimos ser mais elásticos e não estarmos reféns de um corpo técnico tão pesado. Mas há, de facto, uma falta de continuidade em certas profissões.

Penso que também é um problema geracional. Além da exportação, a APICCAPS devia insistir mais no que diz respeito à formação de quadros, junto do Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado, tornando o setor mais atrativo para os jovens. Tal como apostaram em promover a imagem do setor no exterior, também deviam fazer o mesmo cá dentro.

Além desta dificuldade, deparam-se com mais alguma(s)?

A nível de exportações, o Estado devia ajudar-nos mais. Temos a APICCAPS, que dá o que pode, é certo. No entanto, sou de opinião que o Estado devia fazer mais em termos de exportação.

Fala-se agora em trabalhar 35 horas por semana. Mas para quê? Precisamos é de trabalhar, para levar o país para a frente.

Turismo Industrial tem ajudado a recuperar “autoestima” dos sapateiros

A Evereste faz parte do Turismo Industrial de S. João da Madeira. Qual é a sua opinião sobre este projeto?

Acaba por contribuir para dissipar o estigma que existe do sapateiro ou da indústria do calçado, permitindo que se veja a produção do calçado como uma arte. Com este projeto, temos recuperado um bocadinho a nossa autoestima, que se foi perdendo ao longo dos tempos.

Recentemente, foi inaugurada a ampliação da Zona Industrial das Travessas para Sul. Como vê esta possibilidade de crescimento do tecido empresarial?

Vejo com bons olhos este crescimento. No campo dos sapatos, os fabricantes são uns lutadores extraordinários. Aliás, para deitá-los abaixo é preciso muito. E portanto associo todo este desenvolvimento também à indústria do calçado.

Não há dúvida que temos em S. João da Madeira grandes homens no calçado e noutros setores também, que se regem pela honestidade e pela humildade.

Um homem deve ter humildade e respeito pelos outros. A Evereste nunca disse mal de ninguém, nem de um concorrente.

Como foi ter um negócio em plena ditadura?

Nunca a senti. Nunca fomos prejudicados, nem no tempo de Salazar, porque simplesmente sempre estive a leste de tudo o que era política. Sou um apolítico. Se as pessoas vêm-me falar de política, peço-lhes para me falarem, antes, de sapatos.

Conte-nos um episódio marcante da sua vida.

O que mais me marcou foi a ida do meu filho António Carlos para a Evereste, porque vi sempre nele grandes possibilidades. Continua a ser humilde, a ser respeitado. Este é, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da minha vida.

Outro momento que me deu muita satisfação foi quando o meu pai me fez sócio da Evereste. Desde então procurei sempre estar à altura de tamanha responsabilidade.

O casamento também foi marcante. Casei com 25 anos, mas antes ainda namorei muitos anos com a minha mulher. Vinha de S. João da Madeira para S. Martinho da Gândara de bicicleta. Isto, depois de um dia de trabalho na fábrica. O amor tem destas coisas.

Diga-nos uma sua qualidade e um defeito…

A minha maior qualidade é procurar ser útil aos outros, ajudar quem precisa. Tenho também um grande sentido de gratidão. O meu defeito talvez seja ser muito repetitivo.

É um homem de fé?

Sim, de muita fé. É preciso ter fé, acreditar… Pois, se acreditarmos, os sonhos tornam-se realidade.

Fábrica de Calçado Evereste, Ld.ª

– Ano da fundação: 1942

– Localização: Rua Afonso de Albuquerque, 47 – S. João da Madeira

– N.º de trabalhadores: 58

– N.º de sapatos produzidos por dia: 350

– Marcas que produzem: Cohibas; Miguel Vieira; Evereste

– Volume de exportações: 2 milhões

– Países para onde exportam: França; Alemanha; Holanda; Bélgica; Luxemburgo; República Checa; Croácia; Holanda; Angola; Moçambique; Rússia; Emirados Unidos da Arábia; Canadá

– Volume total de negócios anual: 4 milhões

Por: Gisélia Nunes

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